22 de fev de 2011

Augusteum

Augusteum


"...No caminho de volta para casa, faço um pequeno desvio e paro no endereço de Roma que considero o mais estranhamente perturbador - o Augusteum. A pilha de tijolos grande, circular e caindo aos pedaços começou a vida como um glorioso mausoléu construído por Otaviano Augusto. Como ele poderia ter previsto a queda do império?


Na Idade Média, o mausoléu de Augusto foi tomado pelas ruínas e pelos ladrões. Alguém roubou as cinzas do imperador - não se sabe quem. Já no séc. XII, porém, o monumento havia sido restaurado como uma fortaleza para a poderosa família Colonna, para protegê-la dos ataques de vários príncipes guerreiros. Em seguida, o Augusteum, foi transformado em vinhedo, depois em jardim renascentista, depois em praça de tourada (já estamos no séc. XVIII), depois em depósito de fogos de artifício, depois em sala de concertos. Durante a década de 1930, Mussolini confiscou a propriedade e restaurou suas bases clássicas, para que ela pudesse, um dia, servir de local de descanso para seus restos mortais. (Mais uma vez, devia ser impossível, na época, imaginar que Roma jamais fosse ser qualquer outra coisa que não um império em louvor a Mussolini. É claro que o sonho fascista não durou muito, e tampouco ele teve o funeral imperial que previra.


Hoje em dia o Augusteum é um dos lugares mais tranquilos e solitários de Roma, enterrado bem no fundo no chão...


Considero muito reconfortante a resistência do Augusteum, o fato de essa estrutura ter tido uma história tão atribulada e, mesmo assim, ter sempre conseguido se ajustar à loucura específica de cada época. Para mim, o Augusteum é como alguém que levou uma vida totalmente louca - alguém que talvez tenha começado como dona-de-casa, depois inesperadamente ficado viúva, em seguida virado dançarina para ganhar dinheiro e, de alguma forma tenha se tornado a primeira mulher dentista do espaço sideral, e, por fim, tentado a sorte na política - e que, mesmo assim, conseguiu manter intacta a consciência de si próprio durante cada reviravolta.


Olho para o Augusteum e penso que, no final das contas, talvez a minha vida na verdade não tenha sido tão caótica assim. É apenas este mundo que é caótico e nos traz mudanças que ninguém poderia ter previsto. O Augusteum me alerta para eu não me apegar a nenhuma ideia inútil sobre quem sou, o que represento, a quem pertenço ou que função eu poderia ter sido criada para exercer. Sim, eu ontem posso ter sido um glorioso monumento a alguém - mas amanhã posso virar um depósito de fogos de artifício. Até mesmo na cidade Eterna, diz o silencioso Augusteum, é preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação..."




"Comer, Rezar, Amar", de Elizabeth Gilbert


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